InícioLeitura de Rótulos Leitura: 9 min Atualizado: 23/08/2026 Conteúdo EducativoMariana Costa

Açúcar oculto nos rótulos: Os nomes que a indústria usa e como identificar

Para identificar açúcar nos rótulos, procure na lista de ingredientes por qualquer palavra terminada em -ose (glicose, frutose, sacarose, maltose), além de xaropes, méis, melados, sucos concentrados...

Pessoa lendo o rótulo de um produto industrializado no supermercado com expressão atenta

Resumo em 30 segundos

Para identificar açúcar nos rótulos, procure na lista de ingredientes por qualquer palavra terminada em -ose (glicose, frutose, sacarose, maltose), além de xaropes, méis, melados, sucos concentrados e extratos adoçantes. Quanto mais próximo do início da lista, maior a quantidade no produto — os ingredientes sempre aparecem em ordem decrescente de peso.

Neste artigo:

Contexto

Um iogurte com frutas pode ter quatro tipos de açúcar diferentes na lista de ingredientes — e nenhum deles chama "açúcar". Molho de tomate industrializado, pão de forma "integral", granola "natural", barrinha de cereal: todos carregam açúcares adicionados com nomes que a maioria das pessoas simplesmente não reconhece.

A estratégia não é necessariamente uma conspiração malévola. Fabricantes usam combinações de diferentes fontes de açúcar porque, ao dividir o total entre vários ingredientes, cada um individualmente cai para mais baixo na lista — dando a impressão de que o produto contém pouco daquilo. É uma jogada permitida pela legislação atual e muito bem documentada por pesquisadores de saúde pública.

O problema é real. O brasileiro consome em média 18 colheres de chá de açúcar adicionado por dia, segundo dados do IBGE, enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda no máximo 6 colheres para adultos. Boa parte dessa diferença entra de forma silenciosa, embutida em produtos que parecem saudáveis.

Este guia vai te dar ferramentas concretas para decifrar esse código.

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Açúcar oculto nos rótulos: os nomes que a indústria usa e como identificar

Foto: Paul Einerhand / Unsplash

Diagnóstico Rápido

Por que existem tantos nomes para a mesma coisa?

Do ponto de vista tecnológico, cada tipo de açúcar tem características diferentes: poder adoçante, comportamento no cozimento, capacidade de conservação, textura. A indústria escolhe um ou outro conforme a função que precisa cumprir na fórmula do produto.

Mas há também um fator comercial. Quando um consumidor lê "açúcar" como primeiro ingrediente, o sinal de alerta dispara. Quando lê "xarope de glicose-frutose", "maltodextrina" e "suco de cana evaporado" em posições separadas e medianas da lista, o alerta não toca com a mesma intensidade — mesmo que, somados, esses três representem mais açúcar do que o primeiro exemplo.

Além disso, ingredientes com apelo "natural" — mel, melado de cana, açúcar de coco, néctar de agave — carregam um halo de saúde que o açúcar refinado não tem. Metabolicamente, porém, todos elevam a glicemia. O açúcar de coco, por exemplo, tem índice glicêmico ligeiramente menor que o açúcar branco, mas continua sendo açúcar adicionado e deve ser contabilizado como tal.

Os mais de 60 sinônimos que você pode encontrar

A lista abaixo não é exaustiva, mas cobre o que aparece com mais frequência nos produtos brasileiros:

Terminados em -ose:

  • Sacarose
  • Glicose (ou dextrose)
  • Frutose
  • Maltose
  • Lactose (quando adicionada)
  • Galactose

Xaropes e extratos:

  • Xarope de milho
  • Xarope de glicose
  • Xarope de glicose-frutose (HFCS)
  • Xarope de arroz
  • Xarope de bordo (maple syrup)
  • Xarope de malte
  • Extrato de malte
  • Suco de cana evaporado
  • Suco de frutas concentrado

Com apelo "natural":

  • Mel
  • Melado de cana
  • Melaço
  • Açúcar de coco
  • Açúcar mascavo
  • Açúcar demerara
  • Açúcar invertido
  • Néctar de agave
  • Tâmaras em pasta ou purê

Derivados de amido:

  • Maltodextrina
  • Dextrina
  • Amido modificado (em alguns contextos)

Outros:

  • Caramelo (como ingrediente)
  • Caldo de cana
  • Concentrado de suco de maçã

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Açúcar oculto nos rótulos: os nomes que a indústria usa e como identificar

Foto: Eugenia Romanova / Unsplash

Checklist prático para ler rótulos no supermercado

Use este roteiro rápido antes de decidir se um produto entra ou não no carrinho:

  • Abra a lista de ingredientes, não a tabela nutricional. A tabela mostra quantidades totais de açúcares, mas a lista revela as fontes e a ordem de quantidade.
  • Conte quantos sinônimos de açúcar aparecem. Três ou mais tipos diferentes numa lista curta é sinal de produto com alto teor de açúcar adicionado.
  • Veja a posição de cada sinônimo. Ingredientes listados nos três primeiros lugares correspondem à maior parte do produto em peso.
  • Verifique "açúcares adicionados" na tabela nutricional. Desde 2022, a ANVISA exige que rótulos brasileiros discriminem o valor de açúcares adicionados separado dos açúcares totais — use esse número.
  • Desconfie de produtos com mais de 5g de açúcares adicionados por porção em itens que não são sobremesas ou doces — como cereais matinais, iogurtes, molhos e pães.
  • Compare com a versão sem sabor ou sem cobertura. Um iogurte natural tem cerca de 4g de açúcar por 100g (lactose natural). Se o iogurte de morango tem 14g, a diferença de 10g é basicamente açúcar adicionado.
  • Não se deixe enganar por "zero açúcar" na embalagem. Isso indica ausência de sacarose, mas o produto pode conter maltodextrina, xarope de milho ou adoçantes. Leia a lista completa.

Para quem esse cuidado é mais urgente

Toda pessoa que consome alimentos industrializados se beneficia de saber ler rótulos. Mas há grupos para os quais esse conhecimento vai além da preferência alimentar:

Pessoas com diabetes tipo 2 ou pré-diabetes precisam controlar o total de carboidratos de rápida absorção — e açúcares adicionados são exatamente isso, independentemente do nome que levam.

Quem tem triglicerídeos elevados costuma ouvir do médico para cortar gordura, mas frutose em excesso (especialmente o xarope de glicose-frutose) é um dos principais fatores de elevação de triglicerídeos no sangue. Ler rótulos é parte do tratamento.

Pais de crianças pequenas são um grupo crítico. Alimentos infantis — papinhas, biscoitos "para bebês", sucos de caixinha — frequentemente contêm açúcares adicionados em quantidades que excedem a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria, que é zero açúcar adicionado para menores de 2 anos.

Pessoas tentando emagrecer muitas vezes trocam comida industrializada por versões "fit" ou "light" que, na prática, têm quantidade similar de açúcar adicionado — às vezes com adoçantes somados.

Quando a leitura de rótulos deixa de ser suficiente

Saber ler rótulos é uma habilidade valiosa, mas não substitui orientação médica ou nutricional em algumas situações:

  • Se você tem diagnóstico de diabetes, síndrome metabólica ou doença hepática gordurosa, a quantificação de carboidratos e açúcares na dieta deve ser feita com um nutricionista — o impacto varia muito de pessoa para pessoa.
  • Sintomas como fadiga persistente após refeições, fome intensa mesmo depois de comer, ganho de peso sem mudança de hábitos ou sede excessiva merecem avaliação médica. Esses sinais podem indicar alterações na glicemia que vão além do que a reeducação alimentar sozinha resolve.
  • Se você percebe que tem grande dificuldade em reduzir o consumo de doces mesmo com a intenção de fazê-lo, vale conversar com um profissional de saúde. A dependência de açúcar tem respaldo em estudos de comportamento alimentar e não é falta de força de vontade.

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Açúcar oculto nos rótulos: os nomes que a indústria usa e como identificar

Foto: B Y G / Unsplash

Tire suas dúvidas

Maltodextrina é considerada açúcar?+

Tecnicamente, maltodextrina é um carboidrato derivado do amido de milho, arroz ou batata. Ela é classificada nos rótulos como carboidrato, não como açúcar, mas tem índice glicêmico mais alto que o açúcar de mesa (sacarose). Ou seja, eleva a glicemia rapidamente. Na prática, para quem monitora o consumo de carboidratos de rápida absorção, a maltodextrina merece a mesma atenção que o açúcar comum.

Açúcar de coco é realmente mais saudável?+

O açúcar de coco tem índice glicêmico em torno de 35 a 54, contra 65 do açúcar branco — uma diferença real, mas modesta. Ele também contém pequenas quantidades de minerais e inulina. O ponto crucial é que continua sendo açúcar adicionado e o corpo o metaboliza de forma similar. Usar açúcar de coco em menor quantidade do que usaria o açúcar refinado pode fazer sentido, mas substituir um pelo outro na mesma proporção e chamar de saudável é exagero.

Como sei quanto açúcar adicionado tem num produto desde que a ANVISA mudou as regras?+

Desde outubro de 2022, os fabricantes são obrigados a declarar 'açúcares adicionados' como linha separada na tabela nutricional, abaixo de 'açúcares totais'. Esse número inclui todos os tipos de açúcar que foram acrescentados ao produto durante o processamento — independentemente do nome que carregam na lista de ingredientes. Procure essa linha na tabela e compare com o valor diário de referência indicado no próprio rótulo (que atualmente está fixado em 50g para uma dieta de 2.000 kcal).

Frutose natural das frutas é igual à frutose adicionada nos industrializados?+

Quimicamente, a molécula é a mesma. A diferença está no contexto. Nas frutas inteiras, a frutose vem embalada em fibra, água e micronutrientes que diminuem a velocidade de absorção e o impacto no fígado. No suco de frutas concentrado ou no xarope de glicose-frutose, a frutose entra rapidamente na corrente sanguínea, sem esse amortecimento. Comer duas maçãs é bem diferente de beber um suco industrializado que usou 'concentrado de suco de maçã' como adoçante.

Produto 'sem adição de açúcar' pode ter açúcar mesmo assim?+

Sim. 'Sem adição de açúcar' (ou 'sem açúcar adicionado') significa que nenhum açúcar foi incluído durante o processamento — mas o produto pode conter açúcares naturalmente presentes nos ingredientes, como lactose no leite ou frutose nas frutas desidratadas. Já 'zero açúcar' ou 'isento de açúcar' indica que o total de açúcares é inferior a 0,5g por porção, o que é diferente. Ler os dois campos — alegação na embalagem e tabela nutricional — é a única forma de ter certeza.

Ciência

  • ANVISA. Resolução RDC nº 429/2020 e Instrução Normativa nº 75/2020 — Rotulagem nutricional de alimentos. Disponível em: anvisa.gov.br
  • IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2020.
  • Organização Mundial da Saúde. Guideline: Sugars intake for adults and children. Geneva: WHO, 2015.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Manual de Alimentação: orientações para alimentação do lactente ao adolescente. 4ª ed. SBP, 2018.
  • Ludwig DS, et al. Dietary fat: From foe to friend? Science. 2018;362(6416):764-770. (Contexto sobre carboidratos refinados e metabolismo)
  • Stanhope KL. Sugar consumption, metabolic disease and obesity: The state of the controversy. Critical Reviews in Clinical Laboratory Sciences. 2016;53(1):52-67.

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Sobre a autoria

Mariana Costa

Redatora principal — Nutrição e bem-estar

Nutricionista responsável pela autoria editorial dos artigos do Saúde em Foco.

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