Neste artigo:
Contexto
A vacinação não para na infância
Existe uma ideia bastante difundida de que vacina é coisa de criança. Depois dos 10 anos, boa parte das pessoas nunca mais olha para o cartão de vacinação — a não ser quando viaja para fora do país ou quando uma campanha na TV chama atenção.
O problema é que várias doenças que imaginamos controladas ainda circulam. O sarampo voltou a causar surtos no Brasil em 2018 e 2019, com mais de 18 mil casos confirmados, boa parte deles em adultos não vacinados. O tétano mata entre 20% e 30% dos pacientes que não recebem tratamento adequado, e a maioria dos casos no Brasil ocorre em pessoas com mais de 40 anos.
O Ministério da Saúde mantém um calendário específico para adultos e idosos, disponível gratuitamente na rede pública. A questão não é custo nem acesso — é hábito. A gente simplesmente esquece.
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Foto: Pedro Céu / Unsplash
Diagnóstico Rápido
Por que adultos ficam com vacinas atrasadas
Não é negligência pura. Alguns fatores explicam bem esse padrão:
Falta de lembrança ativa. Na infância, os pais levam. Na vida adulta, não existe ninguém para puxar a orelha. Sem uma consulta de rotina que inclua revisão do cartão, o assunto simplesmente some da agenda.
Informação fragmentada. Muita gente sabe que existe vacina contra gripe, mas não sabe que precisa de reforço de hepatite B ou que a dT vence a cada dez anos. O calendário adulto é menos divulgado que o infantil.
Sensação de imunidade permanente. Quem tomou todas as vacinas na infância costuma achar que está protegido para sempre. Algumas doenças realmente conferem imunidade longa, mas outras precisam de reforço periódico — o tétano é o exemplo mais claro.
Acesso irregular ao sistema de saúde. Pessoas sem hábito de consultas preventivas acabam chegando na unidade de saúde só quando estão doentes. Nesse momento, ninguém pensa em atualizar cartão de vacina.
Vacinas recomendadas para adultos pelo SUS
Abaixo estão as principais vacinas do calendário do adulto disponibilizadas pelo Ministério da Saúde. As recomendações variam conforme faixa etária, histórico vacinal e condições de saúde — um profissional de saúde pode orientar sobre casos específicos.
- Hepatite B: 3 doses para quem nunca tomou. Recomendada para todos os adultos sem histórico de vacinação completa.
- dT (difteria e tétano): Reforço a cada 10 anos. Disponível em todas as UBS. Em caso de ferimento profundo, o reforço pode ser antecipado.
- Tríplice viral (SCR): Sarampo, caxumba e rubéola. Duas doses para quem nasceu após 1960 e não tem comprovação de vacina.
- Febre amarela: Dose única para quem mora ou vai a áreas de risco (grande parte do Brasil). A partir de 2020, o Ministério da Saúde adota dose única como proteção vitalícia.
- Influenza: Dose anual. Prioritária para maiores de 60 anos, gestantes, profissionais de saúde, pessoas com doenças crônicas e crianças, mas recomendada para toda a população durante as campanhas.
- Pneumocócica: Para maiores de 60 anos e adultos com doenças crônicas como diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica e insuficiência cardíaca.
- HPV: Para mulheres até 45 anos e homens até 26 anos em contextos específicos — verifique as faixas etárias atualizadas na sua UBS.
- Meningocócica ACWY: Disponível para adolescentes e alguns grupos de risco.
- Hepatite A: Uma ou duas doses dependendo do histórico. Indicada para grupos específicos e viajantes.
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Passo a passo
Como colocar o cartão em dia na prática
O processo é mais simples do que parece. Veja um caminho direto:
Passo 1 — Localize seu histórico vacinal Abra o aplicativo ConecteSUS (disponível para Android e iOS) ou acesse o site gov.br/saude. Ali fica o espelho digital do seu histórico de vacinação registrado pelo SUS. Se nunca usou o app, seu CPF serve de login via conta Gov.br.
Passo 2 — Compare com o calendário oficial O calendário nacional de vacinação do adulto está disponível no site do Ministério da Saúde (saude.gov.br). Verifique dose a dose quais você tomou e quais estão faltando ou vencidas.
Passo 3 — Vá até uma UBS Não precisa de agendamento para vacinação na maioria das unidades. Leve o cartão físico (se tiver) e um documento com CPF. A vacinação de adultos é gratuita e sem filas longas fora do período de campanha.
Passo 4 — Mantenha o registro atualizado Toda dose tomada no SUS deve ser registrada no sistema. Se a vacinação foi feita em clínica particular, leve o comprovante para uma UBS pedir o registro manual no ConecteSUS.
Sobre campanhas anuais: A campanha de influenza costuma ocorrer entre abril e junho. A de multivacinação, que inclui várias vacinas do calendário, geralmente acontece em agosto. Essas datas são uma boa oportunidade para regularizar tudo de uma vez.
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Grupos que precisam de atenção redobrada
Algumas situações exigem revisão mais cuidadosa do calendário:
Gestantes: Recebem vacinas específicas durante o pré-natal, incluindo dTpa (contra coqueluche) e influenza. A proteção transferida para o bebê via placenta é uma das razões centrais para essa recomendação.
Pessoas com doenças crônicas: Diabéticos, hipertensos e pacientes com doenças pulmonares têm indicação de vacinas adicionais, como a pneumocócica e a influenza, porque complicações infecciosas nesses casos são mais graves.
Profissionais de saúde: Têm exposição aumentada e calendário com recomendações extras, incluindo hepatite B com confirmação sorológica de resposta imune.
Viajantes internacionais: Alguns destinos exigem comprovação de febre amarela. Outros contextos podem indicar vacinas contra hepatite A, febre tifoide ou meningite meningocócica, dependendo do país.
Pessoas acima de 60 anos: Faixa com maiores riscos de complicações por influenza, pneumonia bacteriana e herpes-zóster. A vacina contra herpes-zóster (Shingrix) está disponível na rede privada; no SUS, algumas estados oferecem a vacina de geração anterior.
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Quando procurar orientação médica antes de vacinar
A vacinação de rotina é segura e indicada para a grande maioria das pessoas. Mas alguns cenários pedem avaliação antes:
- Imunossupressão: Pacientes em quimioterapia, uso de corticoides em altas doses ou portadores de HIV com imunidade comprometida precisam de avaliação médica antes de tomar vacinas de vírus vivos atenuados (como a tríplice viral e a febre amarela).
- Reação grave em dose anterior: Se houve anafilaxia documentada a alguma vacina ou a componente dela (como ovo, no caso de algumas formulações de influenza), o médico precisa avaliar antes da próxima dose.
- Gestação: Algumas vacinas de vírus vivos não são recomendadas durante a gravidez. A decisão deve ser feita com o obstetra.
- Febre no dia da vacinação: Infecção aguda com febre é motivo para adiar — não cancelar — a vacinação até a melhora.
Fora dessas situações, dúvidas sobre qual vacina tomar, em que intervalo ou com qual histórico incompleto são facilmente respondidas pelo enfermeiro ou médico da UBS, sem necessidade de consulta particular.
Tire suas dúvidas
Adulto que nunca tomou nenhuma vacina pode começar agora?+
Pode e deve. O esquema é chamado de 'vacinação de recuperação' ou 'catch-up'. O profissional de saúde da UBS avalia o histórico e define quais doses aplicar e em que intervalo. Não existe idade mínima ou máxima para começar a se vacinar.
Preciso pagar para tomar vacinas como adulto?+
As vacinas do calendário nacional são gratuitas no SUS para toda a população. Algumas vacinas não incluídas no calendário público — como a vacina contra herpes-zóster Shingrix ou a vacina contra dengue Qdenga para faixas etárias fora das campanhas — estão disponíveis apenas na rede privada, com custo variável.
A vacina contra gripe precisa mesmo ser tomada todo ano?+
Sim. O vírus influenza muta com frequência, e as vacinas são reformuladas anualmente com base nos tipos circulantes previstas para cada temporada. A dose do ano passado não cobre os vírus deste ano de forma confiável.
Como saber se uma vacina tomada na infância ainda está valendo?+
Depende da vacina. Hepatite B e febre amarela (dose única) oferecem proteção prolongada — alguns estudos indicam proteção por décadas. Já o tétano precisa de reforço a cada dez anos. O médico ou enfermeiro pode orientar sobre cada caso, e em alguns casos um exame de sorologia (como o anti-HBs para hepatite B) indica se a imunidade ainda está presente.
Onde fica o histórico de vacinação se eu perdi meu cartão físico?+
O aplicativo ConecteSUS reúne os registros de vacinas aplicadas pelo SUS. Se houve vacinação em clínica particular, o registro pode não estar lá — nesse caso, o comprovante impresso da clínica é a única documentação disponível. Guardar esses comprovantes é importante justamente por isso.
Ciência
- Ministério da Saúde. Calendário Nacional de Vacinação 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/c/calendario-nacional-de-vacinacao
- Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Calendário de vacinação do adulto e do idoso 2023-2024. Disponível em: https://sbim.org.br/calendarios-de-vacinacao
- Ministério da Saúde. Surto de sarampo no Brasil — Informe Epidemiológico, 2019. SVS/MS.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Adult Immunization Schedule. Disponível em: https://www.cdc.gov/vaccines/schedules/hcp/imz/adult.html
- Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Vacinação de adultos e idosos: o que você precisa saber. Disponível em: https://www.fiocruz.br
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